Demoremo-nos na <i>Última Colina</i><br> - os modos de contar em Urbano Tavares Rodrigues
Ficará para outra ocasião o descodificar de alguns sinais que o novo e perturbante livro de Urbano Tavares Rodrigues, com ténue pudor, exibe. A começar pelos três versos de Antero que servem de epígrafe ao volume.
Detenhamo-nos, mesmo que por instantes breves, no conteúdo destes contos de desencanto, revolta e lúcida nostalgia. A começar por Judas, o primeiro desta colectânea que junta 36 contos da melhor colheita. Judas, espelha com brutal clareza e secura os amargos dias que vivemos, o declinar da esperança que nos inculcou os dias jubilosos de Abril. Percorramos-lhe o corpo de denúncia, descubramos-lhe, na crueza efabular, a subtil magma que o neoliberalismo conseguiu inscrever nos desamparados imaginários dos mais frágeis. Percorramos o conto seguinte, Um Dia Na Vida, e a evocação sentida dos autores (alguns) que contribuíram para o universo ficcional do autor de O Supremo Interdito. Vejamos como Um Raio de Luz pode reconstruir o dia aos quotidianos cinzentos; como a catástrofe pode devolver o humano a rostos ensimesmados, dopados, diz o autor, pelas frustrações sem alma destes nossos dias – e o fantástico que atravessa a prosa e transfigura o real.
Apesar dos elementos de desassossego (só existe o que nos inquieta) que Urbano, com rarefeito pudor, espalha pelas páginas de A Última Colina, aguardamos o sageza desse olhar que nos perscruta e redime, debruçado numa outra colina Aquém da Luz, que nos fala da morte e das angústias feridas, íntimas, de padre Jerónimo, em declínio de fé – um conto que é, no limite, um lírico e emotivo hino ao amor e à vida.
Celebração do Desterro sintetiza o melhor do fulgor prosódico de Urbano: um lirismo puríssimo, a metáfora certeira, a denúncia e a urgência cívica de contar os dias da vergonha – para que perdure a indignação e a memória não esqueça.
O Sonho do Prisioneiro, dedicado a Malangatana, traz-nos África de volta e o desespero cercado dos tempos coloniais. O lírico mágico desta fala magoa de tão expressiva, dói-nos por dentro como se escutássemos os murmúrios de dor da terra gretada, de um espaço onde estivemos e não soubemos, não nos deixaram, merecer.
Vera Circe, é um modo lento de contar, de dizer a melancolia, o amor e as traições, a espaços perpassado pelo rumor dos dias cinzentos, onde espreitam verdugos; num tempo em que Lisboa era uma aldeia cercada e «no Chiado havia bufos por todo o lado».
O Cavalo da Noite é um belíssimo conto das memórias alentejanas de Urbano, já anteriormente publicado num livro para a infância e juventude. Este conto de encantamento, poético e sensível, prova ser possível uma linguagem sem concessões ao fácil – à prosa abstrusa e descabelada que por aí volteja – para que a literatura dedicada aos mais novos seja límpida e enxuta. Estas mágicas e sentidas memórias de Urbano ajudam-nos a todos a crescer.
Margem da Ausência é onde a fala dúctil do autor de A Porta dos Limites, esse íntimo rumor lírico que atravessa o seu mais puro impulso prosódico, melhor se exprime. Evoca as praias de Elio Vittorini, de Raul Brandão, servindo-se dessas referências, e de outras, que povoam um raro e incontornável percurso literário. É, no entanto, um conto eivado de nostalgia, lucidez e desencanto, de plenitude. A este poderíamos juntar, não por acaso, o realismo cru de Irmã de Solidão. E o regresso a Moura e à adolescência, num conto onde o fantástico se cruza com o poético numa incursão, rara em Urbano, pelas funduras do universo lésbico. Torre de Luz é, no seu mágico clamor, um dos mais belos textos deste livro.
Os contos de Natal são parábolas belíssimas sobre a vida, a solidariedade, a luta: A Morte de Lenine de Jesus na Noite de Natal e A verdade?, aquele fantástico Natal no Aljube, a Liberdade desejada, sonhada, o fim das opressões, as nossas mais fundas utopias tornadas realidade na «incandescência deste Natal» premonitório.
O Fecho da Noite é um conto quase neo-realista, tocante, de uma humanidade chã que nos estremece a lembrar o Mário Dionísio de Dia Cinzento: Urbano num registo raro, a penetrar o âmago das nossas perplexidades contemporâneas.
O Corno da Lua transporta-nos para as interrogações centrais do universo romanesco de Urbano Tavares Rodrigues: a efemeridade das relações, os limites do prazer, a abjecção como forma lacunar de destruição dos fantasmas que nos habitam, tal como A Rapariga da Torre dos Clérigos, onde o erótico subtil explode em laivos de mistério e sobressalto, no cenário de um Porto de Camilo e Júlio Diniz. O onírico e o fantástico, a lembrar alguns contos de Garcia Marquez, está presente em Os Três Anjos Loucos, com o sol e a terra do Alentejo a cobrirem esta história de bruxas e santos em desespero de afirmação.
O Pecado dos Intelectuais é um conto inquietante, premonitório, à Orwell. É o Triunfo dos Porcos, das sombras do nazismo geradas no seio do neoliberalismo, uma hodierna inquisição disposta a destruir a inteligência e todos quantos ousem rebelar-se contra o sistema. É o colapso do capitalismo na fase actual que poderá gerar estes perigosíssimos ovos de serpente. Urbano, mais uma vez, demiurgo como todos os grandes criadores, alerta-nos para a iminência do perigo.
O que continua a deslumbrar-nos em Urbano Tavares Rodrigues é a capacidade do olhar sagaz que penetra os côncavos da modernidade; essa arguta fala que percorre os clamores do nosso tempo, os desconstrói e amplifica, ora com corajosa e interventiva denúncia, ora com o deslumbre de quem está atento ao pulsar deste tempo de inquietude e espanto.
Mesmo no meio do caos, dos destroços e da morte que percorrem os espaços de luz e sombra deste livro, um pintassilgo canta. Há, afinal, quando acreditamos no homem e na sua capacidade de regeneração, sempre lugar para a esperança – mesmo que tenhamos de subir, em desamparo de esforço, A Última Colina.
Apesar dos elementos de desassossego (só existe o que nos inquieta) que Urbano, com rarefeito pudor, espalha pelas páginas de A Última Colina, aguardamos o sageza desse olhar que nos perscruta e redime, debruçado numa outra colina Aquém da Luz, que nos fala da morte e das angústias feridas, íntimas, de padre Jerónimo, em declínio de fé – um conto que é, no limite, um lírico e emotivo hino ao amor e à vida.
Celebração do Desterro sintetiza o melhor do fulgor prosódico de Urbano: um lirismo puríssimo, a metáfora certeira, a denúncia e a urgência cívica de contar os dias da vergonha – para que perdure a indignação e a memória não esqueça.
O Sonho do Prisioneiro, dedicado a Malangatana, traz-nos África de volta e o desespero cercado dos tempos coloniais. O lírico mágico desta fala magoa de tão expressiva, dói-nos por dentro como se escutássemos os murmúrios de dor da terra gretada, de um espaço onde estivemos e não soubemos, não nos deixaram, merecer.
Vera Circe, é um modo lento de contar, de dizer a melancolia, o amor e as traições, a espaços perpassado pelo rumor dos dias cinzentos, onde espreitam verdugos; num tempo em que Lisboa era uma aldeia cercada e «no Chiado havia bufos por todo o lado».
O Cavalo da Noite é um belíssimo conto das memórias alentejanas de Urbano, já anteriormente publicado num livro para a infância e juventude. Este conto de encantamento, poético e sensível, prova ser possível uma linguagem sem concessões ao fácil – à prosa abstrusa e descabelada que por aí volteja – para que a literatura dedicada aos mais novos seja límpida e enxuta. Estas mágicas e sentidas memórias de Urbano ajudam-nos a todos a crescer.
Margem da Ausência é onde a fala dúctil do autor de A Porta dos Limites, esse íntimo rumor lírico que atravessa o seu mais puro impulso prosódico, melhor se exprime. Evoca as praias de Elio Vittorini, de Raul Brandão, servindo-se dessas referências, e de outras, que povoam um raro e incontornável percurso literário. É, no entanto, um conto eivado de nostalgia, lucidez e desencanto, de plenitude. A este poderíamos juntar, não por acaso, o realismo cru de Irmã de Solidão. E o regresso a Moura e à adolescência, num conto onde o fantástico se cruza com o poético numa incursão, rara em Urbano, pelas funduras do universo lésbico. Torre de Luz é, no seu mágico clamor, um dos mais belos textos deste livro.
Os contos de Natal são parábolas belíssimas sobre a vida, a solidariedade, a luta: A Morte de Lenine de Jesus na Noite de Natal e A verdade?, aquele fantástico Natal no Aljube, a Liberdade desejada, sonhada, o fim das opressões, as nossas mais fundas utopias tornadas realidade na «incandescência deste Natal» premonitório.
O Fecho da Noite é um conto quase neo-realista, tocante, de uma humanidade chã que nos estremece a lembrar o Mário Dionísio de Dia Cinzento: Urbano num registo raro, a penetrar o âmago das nossas perplexidades contemporâneas.
O Corno da Lua transporta-nos para as interrogações centrais do universo romanesco de Urbano Tavares Rodrigues: a efemeridade das relações, os limites do prazer, a abjecção como forma lacunar de destruição dos fantasmas que nos habitam, tal como A Rapariga da Torre dos Clérigos, onde o erótico subtil explode em laivos de mistério e sobressalto, no cenário de um Porto de Camilo e Júlio Diniz. O onírico e o fantástico, a lembrar alguns contos de Garcia Marquez, está presente em Os Três Anjos Loucos, com o sol e a terra do Alentejo a cobrirem esta história de bruxas e santos em desespero de afirmação.
O Pecado dos Intelectuais é um conto inquietante, premonitório, à Orwell. É o Triunfo dos Porcos, das sombras do nazismo geradas no seio do neoliberalismo, uma hodierna inquisição disposta a destruir a inteligência e todos quantos ousem rebelar-se contra o sistema. É o colapso do capitalismo na fase actual que poderá gerar estes perigosíssimos ovos de serpente. Urbano, mais uma vez, demiurgo como todos os grandes criadores, alerta-nos para a iminência do perigo.
O que continua a deslumbrar-nos em Urbano Tavares Rodrigues é a capacidade do olhar sagaz que penetra os côncavos da modernidade; essa arguta fala que percorre os clamores do nosso tempo, os desconstrói e amplifica, ora com corajosa e interventiva denúncia, ora com o deslumbre de quem está atento ao pulsar deste tempo de inquietude e espanto.
Mesmo no meio do caos, dos destroços e da morte que percorrem os espaços de luz e sombra deste livro, um pintassilgo canta. Há, afinal, quando acreditamos no homem e na sua capacidade de regeneração, sempre lugar para a esperança – mesmo que tenhamos de subir, em desamparo de esforço, A Última Colina.